genius2Acabei de visionar um dos mais fabulosos vídeos dos últimos tempos sobre talento. A sua autora é a escritora Elizabeth Gilbert, que num dos famosos momentos das TED Talks nos fala sobre “A different way to think about creative genius.

Esta é uma intervenção que me deixa inspirado, apesar de não concordar totalmente com as conclusões a que a autora chega. Todavia, a forma como apresenta o assunto é tão empolgante e feliz, que recomendo vivamente o seu visionamento, mesmo discordando (parcialmente) da sua perspectiva.

Passo então a explicar:

  • Diz a Elizabeth Gilbert que vivemos numa sociedade em que o medo de falhar destrói em grande parte o nosso potencial criativo. Eis algo com que concordo totalmente! Na verdade, a nossa sociedade é construída tendo por base um ideal de sucesso que torna (erradamente) inaceitável o erro ou o falhanço, quando o mesmo é uma fase natural do processo de aprendizagem, que nos ensina a lidar com a adversidade e a superar dificuldades. É construindo em cima de erros que evoluímos, crescemos e nos desenvolvemos, sendo que as emoções negativas associadas ao facto de não termos conseguido os nossos objectivos não deveriam ser alvo de um reforço negativo social tão esmagador que levasse ao “bloqueio criativo”. E, na verdade, ao tentarmos criar uma geração de “executivos de sucesso”, corremos o risco de transformar os nossos filhos em “candidatos a génios mimados”, que não aceitam falhar e não usam os erros cono alavancas para o sucesso futuro! Não estaremos a cruar uma geração de “potenciais frustrados”?
  • Vivemos uma cultura da penalização do erro, grande responsável da inibição do potencial criativo e do espírito empreendedor, que limita fortemente a nossa capacidade competitiva nos tempos que correm. Apesar de ser produto de uma herança histórica e cultural fortíssima – cf. o meu artigo “A Pesada Herança de Roma” – está nas nossas mãos mudar essa visão do erro e do sucesso, de forma a podermos usar todo o nosso potencial cerebral. Isso passa igualmente por combater a inveja: essa reacção medíocre dos que não se atrevem a descobrir e libertar o seu potencial criativo, achando mais fácil criticar e destruir os que ousam arriscar. A construção desta nova forma de aprender e realizar – na escola, na profissão e mesmo no seio da família – não deve banalizar o erro, mas também não deve diabolizá-lo. Ele é parte natural da performance humana, tal como o sucesso: essa conotação positiva, esse sinal de reconhecimento, essa medida de aceitação pelos outros e de excelente capacidade adaptativa. Não nos podemos esquecer que o sucesso mais não é que o valor percebido pelos outros, traduzido na capacidade de adaptação aos desafios, mas todavia transitório, pois transaccional – cf. o artigo “Smart People or Smart Contexts?“, citado no meu post “Talentologia – parte I“. O facto do sucesso ser efémero deve ser visto assim como algo natural e não redutor, que não deve implicar sofrimento ou culpa, mas sim prazer e felicidade (na superação permanente e na alegria de dar sentido ao que fazemos, dia após dia) – tal como defende a corrente da Psicologia Positiva;
  • Criatividade – como lidar com ela? Esta é uma das questões centrais deste vídeo em que a Elizabeth defende que devemos deixá-la fluir, e assumi-la como natural, pois a criatividade é um processo intelectual em que as emoções têm um papel fundamental e que não deve ser excessivamente racionalizado. Na minha perspectiva, o que deve ser profissional e racionalizado é a forma de canalizar esse potencial criativo para resultados, sendo que um erro clássico que cometemos, enquanto gestores de empresas, passa por tentar racionalizar o processo criativo, em vez de profissionalizar o processo de capitalização desses mesmos inputs criativos!
  • Todos temos o nosso génio, em vez de alguns de nós serem uns (raros) génios! Este é um conceito com que me identifico absolutamente, pois não só evidencia o conceito transitório de sucesso – já atrás referenciado através do artigo “Smart People or Smart Contexts?” -, como reforça a perspectiva de que o talento (ou génio) não é um dom raro, mas um potencial que todos podemos descobrir e libertar, desde que o saibamos procurar, trabalhar, treinar e adaptar às circunstâncias. E esta perspectiva de “democratização do talento” é absolutamente vanguardista e marca as tendências de futuro neste século da gestão – cf. os meus posts sobre Talentologia, em que refiro o contributo inestimável do meu amigo Tiago Forjaz, bem como o meu recente artigo no SOL “Talento: o mito do recurso escasso“.
  • A Elizabeth conclui defendendo o conceito de que o nosso potencial criativo é uma manifestação de algo externo e superior a nós. Esta tese, com a qual discordo, apesar de denunciar uma perspectiva da autora em que evidencia que o seu locus de controle parece ser externo, é, na minha opinião, uma alegoria para o facto de que nos poderemos sempre superar se persistirmos em libertar esse mesmo potencial criativo, em vez de nos tornarmos reféns dos sucessos ou falhanços passados. Mas enfim, posso ser eu a querer tirar conclusões onde elas não existem…

    … Para que possam tirar as vossas próprias conclusões, deixo-vos com o vídeo da Elizabeth nas TED Talks.

    Enjoy it 😉

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