5192ebea5f5a272753Surge este post de um tema que recorrentemente tenho tratado nas minhas aulas, e que tem sido objecto de contínuo interesse por parte dos executivos com quem tenho trabalhado: o efeito do medo e do stress no nosso potencial cerebral.

De facto, a forma como o nosso software mental funciona é um exemplo fascinante dos nossos mecanismos de autorregulação e do nosso potencial de melhoria em caso de boa gestão das emoções…

Costumo dizer nas minhas aulas que, na verdade, não temos um cérebro, nem dois cérebros… mas sim três cérebros. De facto, o nosso cérebro é constituído por 3 sistemas cerebrais, perfeitamente distintos entre si.

A um nível mais profundo temos o chamado sistema reptiliano, ou cérebro do instinto. É nesta área do cérebro que se encontram as respostas instintivas primárias. É um cérebro “rápido” na sua resposta, precisamente porque garante as nossas reacções primárias de sobrevivência. É nesta área do cérebro que temos guardada a “programação básica” que nos faz fugir se ouvirmos um carro a derrapar quando estamos a atravessar a estrada, por exemplo.

Outro dos sistemas cerebrais é o sistema límbico, ou cérebro da emoção. Se partilhamos o sistema reptiliano com os répteis, este é o sistema cerebral que partilhamos, em conjunto com o sistema anterior, com os mamíferos. Ou seja, qualquer cão ou gato que tenhamos lá em casa tem um cérebro que, grosso modo, equivale ao conjunto dos sistemas reptiliano e límbico. Este sistema é responsável pela nossa memória emocional e é precisamente nesta área que se encontra o início do processo fisiológico do stress.

Por fim, temos o neo-córtex, também conhecido como o cérebro racional. É aqui que se processam as chamadas funções cognitivas superiores, como por exemplo a nossa capacidade de planear, reflectir, o raciocínio lógico-matemático, a escrita, a leitura, a expressão artística, a criatividade.

Um dos aspectos mais interessantes do modo como o nosso cérebro funciona passa pelos seus mecanismos de auto-regulação, que se evidenciam, por exemplo, quando as pessoas referem que, sob stress, se sentiram bloqueados.

Investigação recente mostrou-nos que, quando nos encontramos em situações estimulantes e positivas, as pessoas usam fundamentalmente o neo-córtex e o sistema límbico. Pelo contrário, em situações de stress, em que o que predomina é o medo e a ansiedade, os indivíduos tendem a utilizar apenas os sistemas reptiliano e o límbico.

O que é que isto significa? Significa que, quando entramos em stress, ficamos tão inteligentes quanto um simples cão ou gato, se ele tivesse vivenciado o mesmo tipo de experiências, já que deixamos de ter acesso às zonas do cérebro que nos permitem utilizar a nossa inteligência racional!

Isto sucede porque, em caso de perigo percepcionado, sofremos uma descarga de uma substância chamada cortisol, que corta a comunicação neuronal entre o neo-córtex e o sistema reptiliano. Curiosamente, aquilo que explica porque é que em situação de stress temos o nosso potencial cerebral limitado, é aquilo que ilustra como o mesmo funciona de forma tão perfeita, mesmo nos seus sistemas de auto-regulação.

Na verdade, este mecanismo de regulação bioquímica do cérebro tem por objectivo “libertar” o sistema reptiliano para, em caso de perigo, reagir de forma rápida e eficiente, sem estar a ser “empatado” pelo neo-córtex que, por processar operações complexas, é lento.

Este é um mecanismo muito útil para quando corremos perigo de vida, mas, no mundo complexo em que hoje vivemos, o mecanismo do stress não é só despoletado por situações de perigo físico, mas muitas vezes por situações de perigo percebido, relativo à defesa do estatuto, do prestígio, da carreira profissional, entre outras áreas de valorização individual. Ou seja, quando gritamos com um colaborador, estamos a potenciar este mecanismo…

E a isto eu chamo “agatalhar” o próximo, ou seja, reduzir o nosso interlocutor ao potencial cerebral de um simples gato, por via do medo e do stress que lhe gerámos!

Compreendendo isto, fica claro que, em situações de crise, de nada serve gritar com a equipa ou colocar pressão negativa, uma vez que a única coisa que conseguimos é deitar para fora o nosso próprio stress, a nossa agressividade latente, as nossas frustrações, mas a um preço elevado: “animalizámos” a nossa equipa e apenas conseguimos resultados medíocres obtidos mais rapidamente.

Os líderes de equipa mais experientes sabem que a melhor forma de gerir as suas pessoas, mesmo em momentos de crise, passa por tranquilizar o grupo, encorajá-lo a fazer melhor, demonstrar confiança na capacidade das pessoas e, se necessário, mostrar como se faz e participar nas actividades mais críticas.

Mas para tal é preciso disciplina, pois a tentação é grande…

Afinal, que atire a primeira pedra quem nunca “agatalhou” alguém 🙂

Deixo-vos com um excelente vídeo do Chris Balsley, em que explica, em 4 brilhantes minutos, o funcionamento do nosso cérebro. Enjoy it!

2 thoughts on “Como (não) agatalhar a malta… ou a neurociência ao serviço da liderança!

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