Surge este post de uma reflexão que fiz sobre educação, a convite da escola do meu filho mais velho. A questão que constitui o ponto de partida para esta reflexão é:

Considerando que fazer dos nossos filhos pessoas melhores é a missão mais relevante que temos enquanto seres humanos, muitos de nós dão por si perante uma enorme angústia: como cumprir este propósito da melhor forma?

A tendência para um ensino tendencialmente universal e a pressão para uma vida profissional cada vez mais preenchida, leva-nos muitas vezes a acomodar-nos em premissas falsas, mas psicologicamente confortáveis:

 

  • uma delas é a de que a missão de educar os nossos filhos compete à escola (pelo que, se escolhermos uma boa escola, podemos suspirar de alívio e esperar pelos resultados, libertando tempo para outras obrigações).
  • Outra é a de que a educação para os tempos modernos apenas exige elevada competitividade, com um plano curricular completo, variado e exigente (em que as crianças são pressionadas para a excelência em todos os domínios e de sol a sol).

Estes pressupostos são, na minha opinião, absolutamente falsos:

  • educar é uma missão partilhada entre vários agentes educativos, sendo que os pais são uma peça-chave da equação, devendo assegurar a articulação com a escola no acto de educar e não cedendo a qualquer “economia de atenção” neste domínio (educar é uma missão, e não uma obrigação, logo não é delegável);
  • a preparação para um futuro incerto e competitivo não se consegue através de um aumento do volume de actividades curriculares e extra-curriculares, sob pena de estarmos a criar “futuros executivos stressados e frustrados”, em vez de pessoas equilibradas e preparadas para os verdadeiros desafios que enfrentarão.

E como podem os diversos agentes educativos preparar melhor as nossas crianças para o futuro?

De muitas formas, mas focaremos aqui apenas uma delas: a forma como desenvolvemos as múltiplas inteligências que (todos) nós temos.

Atenção que não me refiro à Teoria da Múltiplas Inteligências do brilhante Howard Gardner, que me merece toda a simpatia, mas que não é o objecto deste post! Refiro-me, isso sim, à abordagem triárquica da inteligência, mais conhecida como Inteligência de Sucesso, do meu estimado Robert Sternberg.

Feito este esclarecimento, passemos a explicar a ideia:

Habitualmente, o contexto escolar centra-se no desenvolvimento da chamada “inteligência clássica”, também conhecida por inteligência analítica ou académica, medida tradicionalmente pelos teste de Quociente de Inteligência (QI). Todavia, este tipo de inteligência, certamente relevante, tem por característica permitir-nos resolver problemas bem definidos, sobre os quais temos toda a informação necessária e para o qual só há uma resposta certa (tipicamente os problemas que aprendemos a resolver na escola).

Ora sucede que fora do contexto escolar as coisas são por vezes diferentes: muitas vezes os problemas com que nos deparamos não têm uma formulação precisa, a informação disponível é apenas parcial (ou “digitalmente excessiva”) e o problema muitas vezes tem mais do que uma resposta certa!

E é para este novo paradigma que a educação formal (escola) e informal (pais) têm de estar preparados.

Como? Sabendo estimular os outros dois tipos de inteligência (Sternberg, 2005) que os nossos filhos necessitam de treinar:

  • a “inteligência criativa”, ou seja, a capacidade de encontrar respostas novas para os problemas e a capacidade de identificar novos problemas para resolver (e isto, mais do que usar as capacidades declarativas, implica treinar as capacidades interrogativas, ou seja, a capacidade de observar, ter juízo crítico e fazer boas perguntas!);
  • a “inteligência prática”, ou seja, a capacidade de mobilizar recursos e vontades para colocar em prática uma solução para determinado problema (o que exige boa gestão emocional, resiliência, iniciativa e competências sociais).

Posto isto, urge perguntar: Significa isto que estudar é insuficiente?

… a resposta é SIM!

É preciso saber estudar em grupo, produzir colectivamente, ter espaço para pensar e experimentar e tolerar a frustração e a diferença.

É preciso conviver e brincar também, e tudo isto com professores e pais…

Já repararam que à medida que vamos crescendo vamos perdendo a capacidade espontânea de simplesmente questionar PORQUÊ? (cf. meu post sobre Educar Funcionários ou Empreendedores)…

Já pensaram como somos educados para a conformidade e a obediência, desincentivando o sentido crítico e a capacidade de pensar “out of the box”? (cf. meu artigo “A Pesada Herança de Roma”)...

… e assim se podem “matar” os talentos que temos dentro de nós (cf. meu post sobre Talentologia)…

Sobre as novas formas de educar com as múltiplas inteligências falaremos oportunamente.

Deixo-vos com alguns vídeos sobre o tema.

Enjoy it! 😉

7 thoughts on “As Múltiplas Inteligências na Educação: um desafio ao talento

  1. Ricardo, posso dizer com muito agrado que os teus posts são a melhor coisa que retirei do Jantar da FT, a par das pessoas novas que conheci e onde te incluis 🙂 Inspiradores; muito bons, mesmo!

    Vou fazer a minha quota parte de divulgação 😉

    Grande abraço!

    1. Amigo João,

      Fico muito feliz por saber que aprecias este “cantinho digital” onde vou escrevendo sempre que posso 🙂

      Espero continuar à altura das expectativas e estou-te muito grato pela participação e divulgação!

      Abraço amigo do

      Ricardo

  2. Grande Ricardo,

    Parabens por mais uma reflexão fantastica, não podia estar mais de acordo.

    Não é meu costume comentar, mas desta vez não resisti, é que o teu post vai mesmo de encontro a um projecto que tenho. Se me premites a pubilidade aqui fica; http://www.mizar.pt

    Mais uma vez um abraço de parabens, e continua…

    Nuno Sanches

    1. Amigo Nuno, obrigado pelo feedback e parabéns pela iniciativa!

      Já espreitei o site da Mizar e parece-me ser uma iniciativa muito meritória e de de elevada qualidade!

      Estou cheio de vontade de levar lá o meu filhote mais velho!

      Abração,

      Ricardo

  3. Na questão específica da delegação da missão de ensinar, hoje vi aqui num telejornal uma reportagem sobre a levada de crianças à creche em seu primeiro dia. O que mais me preocupa, e que infelizmente parece não preocupar à maioria das pessoas, é ver uma criança quase sempre com menos de 2 anos de idade (às vezes até menos, 1 aninho) sendo separada da mãe para passar o dia todo na companhia de estranhos, indo para casa somente para dormir e não muito mais que isso. Não entendo como uma criança pode ser educada longe assim da família, e como podem desenvolver um senso de família vivendo assim. A desintegração das família que avança, em meu modo de pensar, é uma consequencia inconsequente (acho que poderia assim dizer) das feministas que tanto buscaram a independência da mulher, e que foi além do livrar-se do marido, mas também dos filhos. Não vejo que a mulher deva ser uma escrava doméstica, mas também não deve ser uma escrava fora de casa, para sustentar a família financeiramente, deixando filhos em creches e maridos perdidos. Pode parecer uma visão antiquada, mas é assim que penso.
    E agradeço à minha mãe, que nunca teve um emprego, e nem por isso deixou de trabalhar. Mas o melhor disso tudo foi que ela pode ser verdadeiramente minha mãe, e eu seu filho, e não mero fruto da concepção educado por pedagogos.

    Abraço de um brasileiro preocupado com o futuro.

    1. Estimado Rafael,

      Obrigado pela sua participação e pelo seu contributo.

      Compreendo perfeitamente as suas preocupações e anseios, e comungo deles. Todavia, discordo das causas e soluções apresentadas.

      Enquanto pai, acho que as tarefas podem e devem ser repartidas de forma equilibrada e dando às figuras parentais um protagonismo que é justificado e pleno em ambos os casos… Ser um pai ausente é algo que me recuso a ser.

      Estranhei não ter feito referência ao seu pai… não concorda com a importância do papel dos pais?

      Abraço amigo do

      Ricardo

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