Surge este post da leitura do meu amigo David Veloso, que, no seu blog Notas e Pensamentos, escreveu uma interessante peça sob o título “A importância da referenciação”.

Apesar do mote da nota dele ser um tema da actualidade político-jurídica deste cantinho à beira-mar plantado, o que retive da mesma foi naturalmente a interrogação sobre o aparente paradoxo: se procuro os mais competentes para uma determinada posição profissional, porque é que recorro à referenciação como forma de filtragem? Não é objectiva e potencia as “cunhas” e os favores…

Recomendo vivamente a leitura do post do david. Logo aí perceberão que o que referi no anterior parágrafo é a minha interpretação do post dele, e não necessariamente o que lá está escrito. Como o vejo sempre como um acutilante crítico social e um óptimo inquietador de consciências, provavelmente exagerei na minha interpretação, e fiz leitura selectiva.

Todavia, seja ou não essa a questão que o David queria colocar, a verdade é que foi essa a questão que se me colocou quando li o seu post: como conciliar a referenciação com a transparência?

Antes de mais, para entendermos como o podemos fazer, há que voltar à questão inicial: se procuro os mais competentes para uma determinada posição profissional, porque é que recorro à referenciação como forma de filtragem? Não é objectiva e potencia as “cunhas” e os favores…

Pois bem, a resposta a este aparente paradoxo chama-se confiança. De facto, mais do que qualquer bateria de provas que possa predizer o sucesso futuro de um candidato para uma determinada posição, a maioria das pessoas, em caso de igualdade de circunstâncias entre vários possíveis escolhas, tende a optar por alguma que lhe ofereça a segurança de ser recomendada por alguém de confiança. Porquê? Por causa da responsabilização inerente à recomendação.

Que quer isto dizer? Que quem recomenda uma pessoa ou entidade, ao fazê-lo compromete o seu bom nome na recomendação, ou seja, compromete o seu futuro com a pessoa a quem recomenda, com base no princípio da reciprocidade.

Isto leva a que a tendência seja para o cuidado redobrado por parte de quem recomenda, excepção feita para quem o faz com objectivos pouco éticos (fraude, corrupção e outros objectivos similares).

Por isso, os incompetentes têm tendencialmente poucas pessoas que os recomendem e os talentosos vêm aumentar continuamente o range das pessoas que estão dispostas a atestar a sua qualidade. É mais uma vez um princípio de mercado que está fortemente ligado ao princípio da reciprocidade e às boas práticas de transparência.

Um bom exemplo do que é referenciação de qualidade e responsável é o LinkedIn. Nessa rede social, cada pessoa pode expôr referenciações (endorsements) feitas por pessoas que se dispuseram voluntariamente a fazê-lo, associando publicamente o seu bom nome ao do profissional que referenciam.

Na prática, estas são as referenciações mais potentes e eficazes no futuro, as que resultam de um social networking transparente e auto-regulado.

Sobre este tema (social networking) não deixem de consultar o estudo da faberNovel Consulting.

Enjoy it 😉

5 thoughts on “Referenciação e Transparência

  1. Mas existem pessoas que não são necessariamente estrelas, mas que por serem bastante habilidosas com as “politiquices” que também acabam por ter muitas e boas recomendações.

    1. Olá Pedro! Obrigado pelo comentário muito pertinente que fez. Ocorre-me sobre isso dizer: pois é, às vezes é assim e a vida parece injusta, não é? Todavia, acredito que em sistemas e organizações onde os princípios do mercado livre sejam a regra, a incompetência acaba sempre por ser exposta, mais tarde ou mais cedo, com consequências para todos os envolvidos. Leva tempo? Às vezes sim. É infalível? Nem sempre. Mas na maioria dos casos funciona. Se, por exemplo, o caso Face Oculta se revelar fundamentado, os envolvidos já estão a pagar a factura. Se não tiver fundamento, pagaram a factura na mesma, o que também pode vir-se a revelar injusto. Mas prefiro pagar esse preço que o oposto (compadrio e corrupção generalizados).

      Abraços,

      Ricardo

  2. Nao poderia estar mais de acordo com a questao da responsabilizacao quando se trata de referenciar alguem, no entanto, creio que nao devemos ficar so pela responsabilizacao inata de quem referencia (o facto do seu nome ficar associado a essa referencia) podemos sim e devemos implementar essa mesma responsabilizacao na organizacao em que trabalhamos, o tipico processo “traz um amigo” devera ter consequencias objectivas para a pessoa que referencia para que esse processo seja mesmo eficaz e consigamos assim obter os melhores.

    Sara

    1. Olá Sara 🙂 É sempre bom voltar à fala consigo! Obrigado pelo comentário, com o qual concordo em pleno. De facto, nas organizações é sempre possível aumentar o grau de exposição e escrutínio de quem recomenda, para o melhor e para o pior, o que será sempre virtuoso, porque mais transparente e consequente. Para o recomendado nada como um bom sistema meritocrático para o escrutinar! Veja mais em https://mentesbrilhantes.wordpress.com/2009/02/27/meritocracia-vicios-e-virtudes/ e em https://mentesbrilhantes.wordpress.com/2009/05/26/meritocracia-vs-mediocracia/

      Beijinhos com saudades do

      Ricardo

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