icarusHá dias em que a dose de realidade com que nos confrontamos é dura demais…

Assim foram os meus últimos dias.

Comecei a semana com uma descoberta que me deixou estupefacto…

Um ex-aluno meu, com quem tenho “trocado umas bolas” depois do curso, tornou-se uma espécie de “amigo por afinidade intelectual” 🙂 , tanto quanto podemos classificar como amigo alguém que aprendemos a respeitar e a estimar pelo estímulo e desafio intelectual que sistematicamente nos coloca, pelo apreço colocado nas tertúlias havidas (seja pessoalmente, seja à distância), mesmo que, na verdade, não nos conheçamos lá muito bem (não somos visitas de casa um do outro, nem nenhuma outra dessas agradáveis mundanidades que ritualizam o processo de reconhecimento social e apreço mútuo).

Pois bem, por mera obra do acaso, descobri há dias que ele, que eu imaginava como um normalíssimo bonus pater familiae (bom pai de família), é afinal alguém que enfrenta, há cerca de um ano, a perda da sua mulher, cuidando hoje sozinho do filho que ambos tiveram…

Tenho estado desde então a recapitular todas as nossas conversas e interacções, e a lê-las sob outro ângulo, sob outra luz, percebendo melhor agora muitas coisas que conversámos e fazendo crescer em mim, silenciosamente, um ainda maior respeito e admiração por este homem e pela perda que teve de enfrentar.

Ontem, a descoberta que fiz foi um verdadeiro soco no estômago…

Através do Facebook, essa fantástica ferramenta de web 2.0, descobri pela enésima vez alguém que já não via há uns bons 20 anos. O Facebook tem-me dado esse prazer fantástico de reencontrar velhos amigos, antigos colegas de escola ou, pura e simplesmente, reencontrar “gente interessante” a quem, por vicissitudes várias, perdera o rasto.

Neste caso, era uma velha amiga de há 20 anos, que sempre recordei com muito carinho, pela sua imensa positividade e energia, pelo seu sorriso do tamanho do mundo e pelo seu gosto pela vida. Liguei-me a ela pelo Facebook, descobri que ela tinha um blog e fui espreitar…

… e foi aí que descobri que a minha amiga estava… paraplégica.

O que pensar perante isto? Não sei. Sei apenas que a sensação de impotência e incredulidade que nos invade é avassaladora. Sei apenas que desde então não paro de recordar a minha amiga de há 20 anos e tento, em vão, imaginar como ela terá enfrentado esta perda.

E por isso me sinto minúsculo e irrelevante perante estes dois exemplos de seres humanos que tiveram de lidar com perdas que estão para lá da minha imaginação.

E por isso percebo que o que ainda terei de aprender é infinitamente mais vasto do que tudo o que possa ter para ensinar.

E por isso percebo que o talento de que aqui tenho vindo a falar é algo tão soft perante o talento destes meus amigos, que tiveram de, no essencial, conseguir renascer.

Porque é disso que aqui se trata: de renascer para a vida, de reencontrar sentido para aquilo que fazemos, de apelar ao que de melhor temos para superar perdas e dificuldades ou de desenvolver novos talentos para nos metamorfosearmos num ser que, perante a perda, passou a ser necessariamente diferente.

Hoje o meu post é pois dedicado a esses talentos ocultos, a esses “heróis silenciosos” que existem por esse mundo fora.

Não aparecem nos jornais nem nas televisões, não vão a concursos nem dão palestras, não são conhecidos como casos de sucesso… são, para todos os efeitos pessoas normais.

Mas dentro da sua normalidade, são tão extraordinários que nem alcançamos a sua grandeza. E são os que verdadeiramente provam o potencial positivo da nossa espécie. São os que provam até onde pode ir a nossa capacidade de superação.

Bem-hajam amigos, por se cruzarem comigo na caminhada da vida. Que possa aprender muito convosco. Todos os dias um bocadinho 🙂 .

São os vossos exemplos que me fazem acreditar que o mais importante na lenda de Ícaro não é o porquê da sua queda, mas sim o sonho que o fez querer voar…

Deixo-vos, para terminar, dois vídeos do saudoso Professor Randy Paush, talvez o mais pungente exemplo que eu conheço dessa capacidade de renascimento, mesmo perante os cenários mais dramáticos…

Enjoy it 😉 !

2 thoughts on “Ícaro: o mais importante não é a queda, mas o sonho…

  1. Este blog vei parar-me “às mãos” por acaso, e fiquei presa neste post…

    Quantas vezes penso que já deveria estar nesta ou naquela fase da minha vida, ou ouvi outros dizer isso mesmo, e respondo a mim mesma, como que a querer arranjar uma justificação para um erro, que “aos menos vou fazendo o que gosto”, mesmo que “fora de época”. Mas sem acreditar no que digo, forçada por “metas sociais”…

    Este post, os testemunhos, recordam-nos que o tempo é sempre pouco, e que o tempo certo para fazermos o que nos apaixona é agora!

    Obrigada

  2. Pois é Cloe, ao escrever este artigo não pude deixar de pensar que devemos viver cada dia da nossa vida como se fosse o último, e que devemos estar gratos, todos os dias, por aquilo que a vida nos dá, pois não sabemos quanto tempo a dádiva vai durar.

    E é este carácter efémero da nossa existência que faz de nós, seres humanos, seres interessantes e interessados, que buscam sentido para tudo aquilo que fazem.

    Se tudo fosse certo e adquirido, qual o motivo de nos levantarmos da cama todos os dias?

    Abraços e obrigado pelo comentário 🙂

    Ricardo

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