Em tempo de férias temos mais tempo para ler jornais, calmamente recostados nas areias quentes do litoral alentejano.

Surgem-me assim mais pretextos para escrever posts, pois o material é mais vasto e variado.

Este post nasce da leitura de um excelente artigo de opinião do Desidério Murcho, filósofo e colunista do Público, cujo título é, sugestivamente, “Ciência e Poder”, que também podem encontrar reproduzido num dos meus blogues preferidos, o De Rerum Natura.

O artigo surge a pretexto do lançamento do novo livro do Nuno Crato, A Matemática das Coisas, que, segundo o autor, é a mais recente obra de divulgação da matemática, na senda de uma vasta caminhada que vem sendo feita por vários cientistas, com o objectivo de democratizar a ciência.

A par da obra de Nuno Crato, outros cientistas portugueses são citados, como por exemplo Carlos Fiolhais ou Jorge Buescu que, quebrando o espírito corporativista da classe científica e académica, se despem dos maneirismos, rituais e linguagem simbólica inerentes ao seu status, e resolvem explicar a ciência às pessoas comuns, numa linguagem simples, acessível e cativante.

Como Nuno Crato sublinha na edição de hoje da revista Única do Expresso, Carlos Fiolhais acumula o recorde nacional de citações científicas (mais de 5.000!).

Nuno Crato tem estado aliás bastante produtivo, e cita na prestigiada revista Ler deste mês um conjunto de 5 livros que nos ajudam a gostar de Matemática, a saber:

  1. Conceitos Fundamentais de Matemática, de Bento de Jesus Caraça
  2. Matemática e Ensino, de Egon Lages de Lima
  3. O Fim do Mundo Está Próximo? de Jorge Buescu
  4. Como Resolver Problemas Matemáticos, de Terence Tao
  5. A Conjectura de Poincaré, de George Szpiro

A acrescentar a esta breve resenha de mind snacks, acrescento o excelente blog “Blogs de Ciência”, que agrega tópicos riquíssimos para quem queira explorar estes temas.

À homenagem de Desidério Murcho feita a estes science evangelists, gostaria de acrescentar a minha referência a António Damásio e a João Magueijo que, nas suas áreas de especialidade, não usando necessariamente uma linguagem tão acessível como os anteriores, mas explorando temas apaixonantes e de vanguarda, ajudam a dar à ciência o sex appeal necessário para inspirar tantos e tão promissores futuros cientistas nas camadas jovens.

A esse propósito, não posso deixar de evocar aquele que é para mim o percursor desta tendência, o “pai” da democratização da ciência à escala global, o saudoso Carl Sagan que, desde a sua obra mais popular – Cosmos – inspirou milhares e milhares de jovens da minha geração a abraçar a ciência como paixão e vocação.

Um deles é certamente o meu grande amigo Cláudio Gomes, brilhante cientista que desenvolve o seu trabalho ao nível da biologia molecular, e que faz parte de um numeroso grupo de “heróis silenciosos” que, no quase anonimato do dia-a-dia do seu trabalho, vão fazendo de Portugal uma referência no mundo da ciência, através de investigação fundamental e numerosas publicações.

E isto leva-me ao meu tópico de reflexão de hoje: os gestores e os empresários são apenas a face mais visível do talento em Portugal.

Mas ele é muito mais vasto: é feito de artistas, pensadores, jornalistas, filósofos, poetas e também cientistas, entre muitos outros.

Recomendo a visita à rede social The Star Tracker, que já mencionei anteriormente, para nos espantarmos com a enorme diversidade de actividades e profissões dos talentos portugueses espalhados pelo mundo.

Tal como mencionei no meu post “Estamos a educar funcionários ou empreendedores?”, temos de batalhar para que os nossos filhos sejam educados de uma forma rica e variada, que possa fazer brotar o talento, seja no formato empresarial ou noutro qualquer. Para isso, o exemplo de generosidade didáctica de Sagan, Damásio, Magueijo, Fiolhais, Buescu ou Crato (entre tantos outros, anónimos, que vão cumprindo o seu papel por esse mundo fora) deve constituir um referencial inpirador, seja para professores, seja para pais ou mesmo (apenas) para os comuns cidadãos, que somos todos nós.

Assim estejamos à altura do desafio…

6 thoughts on “Ciência: o talento não é exclusivo dos gestores

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