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Este post surge da leitura cruzada de dois posts do blog De Rerum Natura.
O primeiro é da autoria de David Marçal, e intitula-se “Cientistas em saldos“. Como o próprio título indicia, neste post o David denuncia a situação verdadeiramente ridícula em que vivem os jovens investigadores em Portugal, país que está em pleno “choque tecnológico”, apostado na criação de vantagem competitiva por via da economia do conhecimento.
É neste país que todavia, há investigadores que ganham o fantástico salário de… 745 euros. Pois é…
Desde já aviso que não vou alinhar no chorrilho de lamentações que esta denúncia pode originar (e originou: basta ler os comentários ao post
!). A minha perspectiva é outra.
A minha perspectiva é optimista e baseia-se no facto de eu (continuar) a acreditar na economia de mercado (apesar da crise, sim! sim, eu sei que não é muito popular dizer isto, eu sei! mas é o que eu penso, so you must live with this…).
O que significa isto? Porquê este optimismo? Porque todas as evidências apontam para o facto incontornável de que, numa economia de mercado livre, as crises se transformam em oportunidades, criando pressão para o desenvolvimento, muitas vezes por caminhos inesperados.
E recordei esta convicção ao ler, mais uma vez no De Rerum Natura, o excelente post da Palmira Silva, intitulado “Economia do conhecimento“. Neste post, a Palmira, denunciando a falta de aposta que Portugal (ainda) faz no hidrogénio como alternativa energética, acaba por destacar de forma exímia a inevitabilidade do desenvolvimento das energias alternativas.
Este desenvolvimento surge não só como resultado de uma opção energética inadiável, mas também como fonte de criação de novas indústrias e de novas linhas de investigação científica (nas quais aliás Portugal tem apostado fortemente nos últimos anos, sendo, por exemplo, a quinta potência mundial nas eólicas).
E é por isso que eu acredito que a própria pressão do mercado levará a que a situação dos investigadores em Portugal acabe necessariamente por mudar: a nossa competitividade disso depende, como já se tornou evidente (até) para os nossos políticos
.
Sobre talento e ciência, sugiro a leitura dos meus posts:
- “CIÊNCIA: O TALENTO NÃO É EXCLUSIVO DOS GESTORES“
- “CIÊNCIA E DESIGN: O TALENTO PORTUGUÊS NÃO PÁRA!“
- “CIÊNCIA E MARKETING: UM CASAMENTO FELIZ“
O blog De Rerum Natura hoje inspira-me profusamente à escrita. Começo por este post, que já vinha sendo alimentado por um fórum animado na rede The Star Tracker.
Todavia, após ter lido o excelente post “Um professor que se reforma não é apenas um professor que se reforma“, da autoria da Helena Damião, não quis deixar de retomar o assunto aqui no meu blog.
E o tema toca na já irritante moda de que talento tem a ver com idade, que se cruza com o preconceito de que, a partir de certa idade, as pessoas já não prestam para trabalhar. Ora, a verdade é que a natureza humana e o funcionamento do cérebro provam que é precisamente ao contrário!
O acumular de experiência, o desenrolar de uma história de vida rica, faz com que sejamos capazes de tomar melhores decisões em menos tempo, à medida que vamos envelhecendo. E isso, desde que feito com alguma perícia, permite compensar largamente a diminuição do “ritmo sináptico”, ou seja, o desacelerar da velocidade de processamento do cérebro, uma vez que o recurso à nossa “hard drive” (memória), cheia de informação relevante, nos diminui o esforço de processamento e análise das situações.
Na prática, as pessoas são como o vinho do Porto graças à sua capacidade de aprendizagem: ou seja, melhoram com a idade.
O João Lobo Machado, no The Star Tracker, lançou este mesmo debate, pois considera (e bem) que é comum, associar o conceito de talento a um jovem. Todavia, como ele próprio refere, o talento está relacionado com as qualidades e com os desempenhos e, logo, não tem idade.
O João realça no seu fórum a diferença de tratamento dado a um Professor Catedrático, por exemplo, que poderá estar no pleno gozo das suas funções quando celebra 70 anos e, querendo continuar a leccionar, todavia não o pode fazer (mesmo havendo vontade das Universidades e reconhecimento dos alunos). Contudo, um cidadão pode candidatar-se à Presidência da República com 80 anos ou exercer o cargo de deputado ou continuar a exercer a sua profissão de médico ou advogado.
O João conclui com uma frase que poderia ter sido dita pela Helena Damião: “Estranhamente, parece que em Portugal os mais “velhos” (que, neste âmbito são, factualmente, mais experientes), são descartados e votados ao ostracismo.”. Pois é…
Eu estou totalmente de acordo com o João e a Helena. Os talentos não têm idade: os talentos brilham, independentemente dos critérios ou rótulos que lhes queiramos colocar!
O caso dos professores universitários é perfeitamente paradigmático: lembro-me de assistir à aula de jubilação do Prof. Mário Murteira (na foto), no ISCTE, em que ele salientava que ao jubilar-se não iria desaparecer, mas sim apenas entrar num registo menos regulado pelos horários, pelo que “continuaria a estar por lá” (e ainda bem!). Outro exemplo que me ocorre é o Prof. Xavier Pintado, na Universidade Católica, que hoje com cerca de 80 anos ainda continua a participar activamente na vida académica. E muitos outros poderíamos concerteza referir (o João relembrou-me logo a seguir o exemplo do Prof. Adriano Moreira).
Quando associamos talentos a jovens estamos a confundir talentos com “elevados potenciais”, o que são coisas muito diferentes. Sobre isso recomendo a leitura do meu post “Talento: um conceito a 3D“.
Ao dispensarmos talento por critérios como a idade estamos a destruir valor, ou a canalizá-lo para outros caminhos (sim, porque os talentos continuarão a voar alto, independentemente do que queiramos fazer com eles: está na sua natureza) – sobre este tópico sugiro a leitura do meu post “O Paradoxo de Ícaro“.
Ao prosseguirmos a nossa busca por talento, importa pois não nos deixarmos iludir pelos nossos preconceitos: o talento não tem idade, apenas brilho
!
Votos de boa leitura e reflexão
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