Recebi há algum tempo um estudo da McKinsey, intitulado “Making talent a strategic priority”.
Este estudo, extremamente interessante, acaba por ser a continuação do já clássico estudo “The War for Talent”, publicado há cerca de dez anos atrás.
Ao continuar essa linha de estudo, a McKinsey chega a algumas conclusões extremamente interessantes, potencialmente polémicas e certamente fracturantes para aquilo que é o pensamento “politicamente correcto” sobre gestão do talento.
A primeira conclusão é que, ao fim de 10 anos, continuamos mal preparados para lidar com a feroz competição pelo talento (conforme já fora enfatizado no seu estudo sobre a banca europeia).
Os dois surveys feitos em 2006 e 2007 pela McKinsey confirmam que a luta pelo talento está no topo das preocupações das empresas, todavia o que se constata é que os investimentos feitos em sistemas e processos de recursos humanos com vista à gestão do talento foram insuficientes, dando pouco ou nenhum retorno!
A grande questão que se coloca é: porquê?
A resposta que a McKinsey encontra para este grande flop é aquilo a que eu resolvi chamar o Efeito Laplace.
Laplace foi um matemático, físico e astrónomo francês, que viveu no dealbar do século XVIII para o século XIX, e, entre muitos contributos para a ciência, postulou a existência de buracos negros, ou seja, um objecto com um campo gravitacional tão intenso que absorve toda a massa em seu redor (incluindo a luz).
Ora na gestão do talento, o efeito similar ao de um buraco negro é aquele que resulta daquilo que a McKinsey chama gestão de curto-prazo, ou seja, a tendência actual para o top management olhar apenas para os resultados imediatos, adoptando uma postura meramente táctica, em vez de assumir uma postura estratégica, de visão a médio e longo prazo.
Ora isto tem efeitos devastadores na gestão do talento, que é, por definição, uma actividade de gestão estratégica, que implica visão a prazo!
Porquê? Por duas ordens de razões:
- Porque estamos a falar de gerir a carreira e as expectativas de pessoas cujo conhecimento é crítico para as organizações;
- Porque essas pessoas têm de decidir colocar esse conhecimento ao serviço das organizações;
- Ter apenas planos de incentivos para os talentos, em vez de ter planos de desenvolvimento de carreira;
- Não ter em conta as necessidades de aprendizagem e networking dos talentos (ver Paradoxo de Ícaro);
- Mudar sistematicamente os planos de carreira ou a estratégia de gestão do talento atendendo à evolução dos números de negócio de curto prazo;
- Apostar nos processos de RH em vez de apostar na relação de cumplicidade que os líderes devem ter com os seus talentos.
Assim, o imediatismo provoca um ciclo vicioso, em que resultados de negócio adversos levam a cortes nas estratégias de retenção e desenvolvimento de talento, que por sua vez levam à degradação dos níveis de talento na empresa, que fazem com que os resultados de negócio tendencialmente se degradem cada vez mais, o que leva a mais cortes no que é (mesmo que não assumidamente) considerado supérfluo: as pessoas.
E é isto o Efeito Laplace… um imenso “buraco negro” de imediatismo que faz desaparecer qualquer réstea de talento em seu redor…
Como se combate? Segundo a McKinsey, através de algumas fórmulas simples:
- Trazendo a gestão das pessoas e do talento para cima da mesa da discussão estratégica em cada empresa, o que obriga os profissionais de recursos humanos a conhecerem bem o negócio, assumindo uma postura de business partner, com uma atitude de marketing interno (como defendo no meu livro Persona e no meu capítulo do livro Gestão de Activos Humanos no Séc. XXI)
- Assumindo uma abordagem inclusiva da gestão do talento, em que não só contam os top performers como os B players, em que se consideram as motivações e interesses de múltiplas gerações e culturas, assumindo que diferentes segmentos de contribuidores são igualmente essenciais numa cadeia de valor em que o conhecimento tem de fluir da interacção entre todos e não apenas brotar de um conjunto de iluminados (conforme aliás defendi no meu capítulo do livro Inteligência Humana).
Votos de boa leitura







6 comments
Comments feed for this article
Setembro 15, 2008 às 10:07 am
A arte da implementação « Mentes Brilhantes
[...] que estamos a falar? Daquilo que foquei no meu anterior post – O Efeito Laplace – ou seja, o imediatismo, o curto prazo, a gestão do dia-a-dia, perdendo o focus na estratégia [...]
Setembro 18, 2008 às 9:46 am
O Mito da Coerência Estratégica « Mentes Brilhantes
[...] A gestão imediatista que tantas vezes se pratica nas organizações, é disso exemplo, e potencia este tipo de mindset, ao não permitir que se olhe para a gestão em perspectiva – cf. o meu post sobre o Efeito Laplace. [...]
Outubro 31, 2008 às 9:55 am
A inteligência emocional na gestão dos talentos « Mentes Brilhantes
[...] Por outro lado, os contextos mais favoráveis à disseminação de talento são contextos de liberdade, onde o pensamento crítico e a criatividade se desenvolvem e são mais eficientemente aproveitados, numa fórmula ganhadora para ambas as partes e a longo prazo – cf. os meus posts “O Paradoxo de Ícaro” e “O Efeito Laplace na Gestão do Talento“. [...]
Janeiro 21, 2009 às 4:41 pm
Talentologia - parte I « Mentes Brilhantes
[...] à perspectiva inclusiva de talento, que eu também defendo já há alguns anos – cf. o meu post Efeito Laplace. Para esta perspectiva contribuiu fortemente a noção de que o talento é efémero, uma vez que [...]
Abril 28, 2009 às 3:29 pm
Multiplicar Talento « Mentes Brilhantes
[...] Curiosamente, a própria McKinsey, em estudo recente, admitiu os fracos resultados desta abordagem – cf. post Efeito Laplace. [...]
Agosto 12, 2009 às 7:04 pm
Arrogância: talent serial killer « Mentes Brilhantes
[...] negócios e na gestão, que afasta o talento das organizações de forma ainda mais poderosa que o Efeito Laplace: se quisermos, a arrogância é o que está por detrás da famosa Falácia do Monte Olimpo ou do [...]