Ao ler hoje a edição de Agosto da revista Executive Digest, deparei-me com uma reportagem sobre a estratégia oceano azul, alavancada no exemplo do Cirque du Soleil.
Como acho que o Cirque du Soleil merece um post só para ele, resolvi antes escrever sobre os ensinamentos do livro de W. Kim e Renée Mauborgne, “A Estratégia Oceano Azul”, publicado em Portugal pela Actual Editora, uma das melhores editoras de gestão da actualidade.
A grande mensagem deste livro é que a chave para sobreviver no mundo global e competitivo de hoje é, curiosamente, deixar de concorrer.
Surpreendidos? Pois bem, esta mensagem é só uma surpresa à primeira vista.
É aliás uma mensagem que vai em total linha de concordância com o meu post sobre “Game-changing strategies“, onde o Prof. Costas Markides da London Business School defendia exactamente a mesma tese:
Para quê consumir recursos, energia e tempo a tentar ser melhor que milhares de concorrentes directos, a tentar fornecer melhor algo que tantos têm para oferecer, alcançando incrementos de competitividade perfeitamente marginais (bem como os ganhos daí resultantes!), quando o ganho potencial é muito maior se oferecermos algo de radicalmente novo e diferente aos nossos potenciais clientes?
O conceito de “red ocean” é precisamente correspondente ao primeiro cenário apresentado: um oceano cheio de tubarões, que lutam pelo mesmo naco de carne, e que pouco conseguem ao competir contra tantos, num mar vermelho de sangue (competição tradicional).
Quando se afirma que o segredo é deixar de concorrer, não se entenda com isso deixar de ser competitivo. É exactamente o contrário: é ser mais competitivo, com o dispêndio do mínimo de esforço e recursos possíveis, centrando o investimento na inovação e não na concorrência.
É a estratégia do “blue ocean”, ou seja, partir para novos mercados, em que a concorrência é pouca ou nenhuma, especialmente se formos capazes de criar novos mercados! Aí, o mercado assemelha-se a um oceano azul por desbravar, onde não prolifera a cor vermelha do sangue derramado na luta contra a concorrência.
Claro que ela aparecerá sempre, mais tarde ou mais cedo. Logo, a estratégia sustentadamente vencedora não é partir para a estratégia do “red ocean” quando a concorrência chega, mas sim continuar a desbravar novos “blue oceans”, ou seja, gerar um ciclo de inovação permanente.
Isto depende acima de tudo dos talentos que consigamos ter dentro de casa, claro está…
O que me levou a pensar imediatamente numa das empresas que melhor faz isto: a Google, Inc.
A Google dedica-se permanentemente a gerar novos produtos e serviços, testando-os experimentalmente e contando inclusive com os utilizadores (clientes) como beta-testers. Para perceber a sua dinâmica de lançamento de novos produtos, basta ir ao Google Labs!
Não é por acaso que a Google investe tanto na inovação, na captação de talentos e na criação de condições para promover a criatividade. A Google sabe que disso depende a sua sobrevivência a prazo: só a capacidade de criar valor novo percebido continuamente, em plena cumplicidade com os clientes poderá garantir o sucesso de forma sustentada.
Sabiam que na Google os trabalhadores têm 20% do tempo de trabalho disponível para ser dedicado aos seus projectos pessoais? Parece parvoíce? Não: a Google sabe que é geralmente daí que nascem as mais loucas ideias novas que podem lançar os mais interessantes novos produtos do seu portfolio.
Pois é: parece que voltamos ao potencial por explorar que os nossos cérebros têm, e que é sem dúvida o mais valioso capital das organizações.
Assim o saibamos aproveitar…
Para quem quiser saber mais sobre esta perspectiva, analisando os economics por trás do caso da Google, não deixem de consultar a brilhante análise feita por Victor Cook, no seu post Google vs. Microsoft: Crossing the Blue-Ocean, Red-Ocean Divide, em que é feita precisamente a comparação entre a Google e o super-gigante Microsoft: uma verdadeira delícia, com gráficos e tudo!
Não deixem também de ver o conjunto de vídeos que encontrei no Youtube sobre a Google e sua forma de trabalhar. São uma verdadeira lição e uma potente inspiração para todos nós.
Enjoy it!







6 comments
Comments feed for this article
Setembro 7, 2008 às 4:25 pm
Google Chrome: architectural advantage em construção! « Mentes Brilhantes
[...] eu tinha publicado o post, já o meu amigo Pedro Rebelo comentava que a Google, ao lançar o seu novo web browser – o Google Chrome – estava a demonstrar como se aplicava o [...]
Outubro 8, 2008 às 1:13 pm
A maldição do Copy Paste « Mentes Brilhantes
[...] Em contrapartida, inovar implica que o investimento feito em estabelecer novas regras e novos standards de satisfação dos clientes traz um retorno inegavelmente superior, ao marcar o ritmo do mercado e ao levar as organizações para mercados ainda por explorar - sobre este tema cf. os meus posts “Game Changing Strategies” e “Google: o exemplo de estratégia blue ocean”. [...]
Novembro 28, 2008 às 12:23 pm
Inovação: uma medida da gestão do talento « Mentes Brilhantes
[...] antecipar tendências e descobrir os novos mercados que ainda vamos criar – cf. os meus posts sobre Estratégias Blue Ocean, Architectural Advantage e Game Changing Strategies. O imediatismo é fatal para o processo de [...]
Março 31, 2009 às 9:56 am
Capitalismo criativo « SER EMPREENDEDOR
[...] reforça-se o emergir destas tendências com os exemplos de companhias como a Southwest Airlines, a Google ou a Starbucks, que estão orientadas para satisfazer as necessidades de um vasto leque de [...]
Junho 8, 2009 às 10:52 am
YDREAMS: ou como o talento frutifica… « Mentes Brilhantes
[...] uma visão de futuro traduzida em produtos concretos que geram novos mercados numa estratégia blue ocean e uma lição de gestão de conhecimento, pela forma como liga a investigação universitária ao [...]
Junho 29, 2009 às 6:59 pm
Cirque du Soleil: blue ocean talent strategy « Mentes Brilhantes
[...] tão bem me recordou uma talentosa aluna de MBA há bem pouco tempo ) – cf. o meu post sobre blue ocean strategies e o case study de Kim e Mauborgne sobre o [...]